Texto do Livro Os voos da psicologia no Brasil- Estudos e Práticas na Aviaçao -2002
A AVIAÇÃO CONTEMPORÂNEA SUJEITO, CULTURA E SUBJETIVIDADE
MARIA DA CONCEIÇÃO PEREIRA
Mestra em Psicologia Clínica da Universidade Católica de Pernambuco
Assessora em Fatores Humanos – Segundo Serviço de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (SERIPA2)
Doutora em Psicologia Clínica
Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Católica de Pernambuco
RESUMO
Este artigo procura aproximar os conceitos de sujeito, cultura e subjetividade e o mundo aeronáutico,
propondo uma leitura dos processos de subjetivação da aviação na contemporaneidade.
Essa leitura se dá, desde dos tempos primordiais da aviação diante do mito de Dédalo e Ícaro chegando a uma
análise que faz uma indicação de um novo processo de subjetivação na aviação sem mitos nem deuses.
Busca-se entender essa subjetivação no sentido de que ela vem se produzindo não só no registro dos processos ideológicos que permeiam e fazem funcionar a aviação no mundo atual, mas está, também, presente nos “corações dos indivíduos”: os sujeitos da aviação, que vêm fazendo e estão construindo essa mesma aviação, carregando consigo um modo de ver o mundo e de poder se articular, cada qual trazendo suas próprias condições de singularidade, criando assim uma ordem social produzida e articulada, e promovendo transformações diante de novos objetos e aparatos tecnológicos (novas aeronaves), novos conceitos e novas técnicas; uma aviação que se expressa para e na sociedade e, especialmente, naqueles que a fazem.
1-INTRODUÇÃO
Ao pensar em elaborar um texto que permitisse aproximar os conceitos de Sujeito, Cultura Subjetividade e o Mundo Aeronáutico, procuramos compreender subjetividade seguindo as idéias de Guattari e Rolnik (2001) que entendem processos de subjetivação como um campo de forças e fluxos de diferentes níveis que afetam os indivíduo e cuja afetação, se expressa nas figuras de subjetividade que podem se fazer presentes num gesto, num comportamento, num modo de pensar, de agir, enfim de estar no mundo.
Estes autores consideram a subjetividade de natureza “Maquínica”, pois ela é essencialmente fabricada, modelada, recebida e consumida e propõem: “ao invés de ideologia, prefiro falar sempre em subjetivação, em produção de subjetividade” (GUATTARI e ROLNIK, 2001, p.25). Assim, objetivamos no presente texto, pensar na produção da subjetividade dentro da aviação e do mundo aeronáutico.
Essa subjetividade vem se produzindo não só no registro dos processos ideológicos que permeiam e fazem funcionar a aviação no mundo, mas está, também, presente nos “corações dos indivíduos”: os sujeitos da aviação, que vêm fazendo e estão construindo essa mesma aviação, carregando consigo um modo de ver o mundo e de poder se articular, cada qual trazendo suas próprias condições de singularidade. Estas condições se expressam através de seus desejos, por um gosto de viver, por uma vontade de construir o mundo a que pertencem. E, assim, vão criando uma ordem social produzida e articulada, em que microfísicas de uma cultura engendram domínios de um saber fazer voar, permitindo mudanças e promovendo transformações diante de novos objetos e aparatos tecnológicos (novas aeronaves), novos conceitos e novas técnicas; uma aviação que se expressa para e na sociedade e, especialmente, naqueles que a fazem.
2- A ORIGEM MITOLÓGICA DA AVIAÇÃO: PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO
Para fazer a ligação do sujeito da aviação, da cultura e da construção da subjetividade, acreditamos ser necessário realizar uma viagem, poderíamos até mesmo dizer, um vôo teórico e um retorno no tempo da mitologia e buscarmos nos mitos de Dédalo e Ícaro as origens do desejo de voar. Este recuo nos parece relevante na medida em que acreditamos que, ainda hoje, é este mito que influencia e se revela no sujeito da aviação e na cultura aeronáutica.
Vamos nos remeter aos idos do séc. XLII a.C., quando Púbilo Ouvídio Nasão, em suas Metamorfoses (BRANDÃO, 1994), narra um episódio consagrado da Mitologia greco-latina. Segundo esse autor, as mitologias concentram todos os símbolos que representam os valores culturais e uma dada sociedade e que são responsáveis por sua identidade cultural, uma vez que tornam possível o movimento de conscientização, mesmo que simbolicamente, daqueles valores impressos no inconsciente geral de seus componentes: "Com o recurso da imagem e da fantasia, os mitos abrem para consciência o acesso direto ao inconsciente coletivo", (JUNG apud BRANDÃO, 1994, p.86). Não obstante um conjunto de mudanças pertencentes ao mundo da pós-modernidade, promovendo novas relações dentro da atividade aérea e com os sistemas de segurança ao voar, ainda podemos perceber o quanto a origem mitológica do voar está presente no imaginário daqueles que fazem a aviação.
Assim sendo, a partir desta perspectiva, nos debrucemos sobre o relato mitológico de Nasão:
Esse Dédalo era ateniense, da família real de Cécrops, e foi o mais famoso artista universal, arquiteto, escultor e inventor consumado. É a ele que se atribuíam as mais notáveis obras de arte da época arcaica, de que fala Platão no Mênon. Mestre de seu sobrinho Talos, começou a invejar-lhe o talento e no dia em que este, inspirado na queixada de uma serpente, criou a serra, Dédalo o lançou do alto da Acrópole. A morte do jovem artista provocou o exílio do tio na ilha de Creta. Acolhido por Minos, tornou-se o arquiteto oficial do rei e, a pedido deste, construiu o célebre Labirinto, o grandioso palácio de Cnossos, com um emaranhado tal de quartos, salas e corredores, que somente Dédalo seria capaz, lá entrando, de encontrar o caminho de volta. Louco de ódio pelo acontecido (Dédalo, em dado momento, havia planejado com Ariadne a libertação de Teseu, filho de Ageu, rei de Atenas e oponente do rei de Creta), Minos descarregou sua ira sobre Dédalo e o prendeu no Labirinto com o filho Ícaro, que tivera de uma escrava do palácio, chamada Náucrates. Dédalo, todavia, facilmente encontrou a saída e, tendo engenhosamente fabricado para si e para o filho dois pares de asas de penas, presas aos ombros com cera, voou pelo vasto céu, em companhia de Ícaro. (BRANDÃO, 1994, p. 94).
Mas Ícaro, jovem rapaz movido pelo deslumbramento de sua condição de ultrapassar seus próprios limites e viver o prazer de voar, desconsiderou todos os avisos do pai Dédalo, de que se mantivesse afastado o bastante da superfície do mar, para que, na fuga do Labirinto, as penas de suas asas não se encharcassem, e do sol, para que a cera não derretesse, soltando as mesmas. Aproxima-se demasiadamente do sol e permite que o calor desmantele suas asas, fazendo-o precipitar ao Mar Egeu, que passou, a partir de então, se chamar Mar de Ícaro.
O que nos remete essa estória mitológica é que o processo de formulação de uma motivação, a atividade aeronáutica, se faz presente no homem desde os tempos mais remotos, aqui dimensionada pelo mito de Dédalo e Icaro. Este mito também caracteriza a vivência do primeiro acidente aeronáutico: Ícaro morre por não cumprir as normas e regulamentos impostos pelas prescrições de vôo que teria que estar atento e que foram normatizadas por seu pai, criador das asas, para possibilitar não só que ele vivesse o prazer e o poder trazido pelo vôo, mas, também, para garantir seu prazer consciente na continuidade de sua vida e na perspectiva de um vôo seguro.
Vamos aqui, também, nos inspirar no perfil caracteriológico para pilotos desenvolvido por Leimann Patt (1987) fundamentado na mitologia. Embora esse estudo dimensione quatro perfis mitológicos envolvendo, assim, outros mitos que também, por outras formas, realizaram vôos, vamos nos deter apenas no mito de Dédalo e Ícaro, pensando que esse mito primordialmente expressa o desejo e o prazer de voar no homem e as suas relações primitivas específicas com a situação de um vôo.
Segundo Leimann Patt (1987, p.132):
Dédalo é o protótipo do piloto engenhoso, hábil, inteligente, criterioso e prudente, que conhece seus limites e seus ‘mínimos’ e os respeita, que conhece os perigos aeronáuticos e não corre riscos desnecessários, predomina em sua motivação os aspectos utilitário e social do vôo antes dos demais aspectos. Ícaro é imprudente, imaturo, insaciável, que se exige de si mesmo e de sua máquina além de sua resistência, não mede riscos porque não tem consciência deste risco.
Dédalo representa uma conduta operativa de um piloto responsável e profissional, respeitoso com as regras, normas e com seus procedimentos, sendo, portanto emocionalmente equilibrado.
Leimann Patt (1987), descreve Ícaro como aquele que expressa imprudência de forma típica, propenso a erros por sua falta de critérios, de personalidade adolescente e imaturidade no manejo de seus afetos.
Descritos os perfis caracteriológicos a partir desses mitos, voltemos à nossa reflexão naquilo que especialmente queremos levantar como ponto de referência: a construção da subjetividade na aviação e na cultura aeronáutica desde os tempos mais remotos. Vejamos, primeiro: o sujeito inventado na aviação dos tempos primordiais se formulou muito especialmente numa imagem simbólica representada naquele que levado pelo seu desejo de voar e deslumbrado por sua própria condição de elevar-se aos céus, ultrapassou não só seus limites, mas as próprias condições pré-determinadas para a segurança de seu vôo. O mito símbolo que foi perpetuado no mundo aeronáutico como figura e imagem representativa e significativa foi mais Ícaro que Dédalo.
O que queremos suscitar, aqui, não é a perspectiva de pilotos identificados inadequadamente e/ou inconseqüentes quanto à sua segurança de voar por lembrarem Ícaro como símbolo; porém, pensando na significação vivida dos tempos primordiais da aviação, o que escutamos nos discursos dos pilotos, ainda hoje, e mesmos naquelas pessoas que pretendem tornarem-se aviadores, é a busca de um prazer, a busca da realização de um desejo, de um feito que efetivamente os fazem sentir ultrapassando suas condições terrenas, percebendo-se como invulneráveis diante da possibilidade da morte, vivendo algo que os transformem em um quase Deus poderoso ou o próprio Ícaro deslumbrado.
Retomando a vivência de Ícaro, ao perceber-se em vôo, pensemos que sua condição de deslumbramento trazia um prazer e uma alegria própria de um jovem que regido por sua imaturidade desconhecia os riscos efetivos de voar.
Chegamos a um ponto que cremos ser importante, pois nos auxilia na compreensão da ação do sujeito aviador de hoje, que expressa comportamentos, agindo sobre seu presente e seu real, diferenciando-se e se reconhecendo singular em sua existência, dentro da condição de um tempo que foi determinado e historicamente constituído, subjetivado, possivelmente em função deste mito.Isso nos permite inferir que, na aviação, a história do aviador vem se constituindo e se construindo, a partir de um sujeito na perspectiva da vivência do poder e do prazer ao voar e, podemos pensar, que a sua cultura se desenvolveu num movimento em torno deste mesmo sujeito.
Eizirik (1995) coloca que a subjetividade, que sempre foi um tanto rechaçada pela “mítica da objetividade” da ciência, nos remete para uma questão de possibilidades de reflexão sobre o campo do saber da própria existência humana. Assim, estamos aqui pensando a existência da aviação como fenômeno que faz parte e que tem um sentido para o homem na sua humanidade, entendendo humanidade como a capacidade que o homem tem de atribuir sentidos ao longo de sua história e de ser capaz de fazer ou elaborar sentidos novos, construindo, neste caso, um social na aviação em que singularidades se organizam através dos sujeitos que a vivem e a fazem.
Neste viver e fazer sentidos, ao mesmo tempo, os sujeitos se constroem e se descontroem na vivência de turbulências e vibrações de um novo, quando esse novo se faz necessário. O sujeito se desfaz e se refaz, a cultura mantém um movimento de interconexões de laços e de novos universos de referencias, num re-simbolizar o que está posto. A aviação dos tempos atuais não pode ser mais a mesma dos tempos primordiais, por tudo que vem afetando-a, tanto diante do desenvolvimento tecnológico instrumental, quanto diante dos novos processos de gerenciamento administrativo econômico no contexto de uma atividade produtora de bens e consumo de uma sociedade ainda dimensionada pelo capital.
A aviação vive novos processos de subjetivação fazendo emergir novas culturas e novos sujeitos.
3- A AVIAÇÃO DA PÓS-MODERNIDADE: UMA PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE SEM MITOS NEM DEUSES.
Vivemos num tempo atônito que, ao debruçar-se sobre si próprio descobre que seus pés são um cruzamento de sombras, sombras que vêm do passado que ora pensamos já não ser, ora pensamos não Ter ainda deixado de ser, sombras que vêm do futuro que ora pensamos já ser, ora pensamos nunca vir a ser (SANTOS, 1985).
O sujeito da aviação da pós-modernidade parece ser aquele que tenta sustentar seu desejo de voar em tempo de crise, em um momento em que as transformações estão postas, porém ainda não elaboradas, vivendo, assim, um sofrimento ainda pouco dimensionado. Parecem cansados de lutar contra as perdas incessantes de condições anteriores, de uma aviação que trazia um poder para si, um poder de sedução diante do próprio mundo aeronáutico e da sociedade em que estava inserida e que, também, oferecia a esse sujeito um sentido diferenciado em sua existência.
Antes, este sentimento de poder o colocava numa condição de mito ou um quase Deus.
Hoje, ele passa a ser espectador do seu avião extremamente automatizado, que só necessita que gerencie seu sistema tecnológico de forma passiva, porém eficiente, com eficácia e precisão. Assim, torna-se um mero trabalhador de um sistema exigente, normatizado, padronizado e globalizado, gerido essencialmente por uma subjetivação capitalista, que não mais oferece a suposta condição de herói trazida pelos mitos e nem a de prazer sem dor.
Passando este sujeito a existir num contexto de um mal-estar social em função de condições de uma aviação globalizada e universalizada, numa cultura individualista e pouco solidária onde se vê instalado, tendo que lidar com incertezas e percebendo-se como um sujeito desalojado, perdido em sua navegação, quem sabe com “desorientação espacial”, à procura de um aeródromo que lhe permita pousar seguro.
A situação de crise da aviação, hoje, reforça a possibilidade que esse sujeito saia de sua condição cultural de um dado país e uma dada região e vá voar em lugares distantes para continuar sobrevivendo e mantendo-se em um emprego. Ele pode sair do Brasil e ir voar nos Emirados. Sua desterritorialização é literal.
Segundo Leimann Patt (2003), o piloto da pós-modernidade capta uma espécie de vazio, fruto de uma perversão dos papéis nas tomadas de decisões que deposita um mando nas mãos de um poder invisível, o da economia global, e vive uma pressão moral no trabalho que pode ser desencadeadora desse sofrimento social que o neoliberalismo produziu, surpreendendo os trabalhadores da aviação e não só a eles.
O que se processa, também, dentro da aviação do mundo de hoje, ainda é a busca daquela essência identitária, vivida como uma sólida morada de um tempo que não mais existe. O tempo dos heróis, deuses e mitos não tem mais espaço nos céus.
O cenário avançou da perspectiva de aeronaves que eram conduzidas pelo domínio cognitivo e motor dos pilotos levando-os a dimensionar sua relação com a máquina como uma mimetização onde no manejo, na condição de manobrar e segurar o manche, a força da máquina se juntava à condição humana onipotente de eleva-la aos céus como num só corpo. Hoje, a máquina já opera sem a necessidade concreta da força motora e cognitiva deste mesmo homem.
O cenário evoluiu tanto no que diz respeito à demanda de passageiros como na dimensão de um trafego aéreo, antes controlável por condições convencionais de um fluxo mais regional que internacional, aliando-se ao crescimento e exigência do mercado econômico, entre tantos outros pontos que fizeram fluir elementos que “desestabilizaram” o próprio sistema aeronáutico, existindo a necessidade da elaboração de um novo script.
Um script que deverá fomentar a possibilidade de “novas proteções” que servirão de apoio para os efeitos das turbulências que se efetivarão ao longo da trajetória de seus vôos, enquanto aviação do mundo pós-moderno, em que cada sujeito que faz a aviação possa compreender os processos de mudanças que estão ocorrendo ao longo da história da aeronáutica enquanto atividade e trabalho humano, vislumbrando suas próprias potencialidades e possibilidades de revisão de seus conceitos internos. Assim poderá formular um novo script, que vai se traduzir especialmente nos novos processos de subjetivação que vão se fundando, justamente na perspectiva de um sujeito da aviação não absoluto nem herói nem Deus, mas que possa apontar suas infinitas condições de criação e re-criação diante de suas atividades, permitindo formulação de novos significados e novos sentidos, que possam potencializar a sua vida e sua existência no meio aeronáutico.
Trazendo Suely Rolnik[1] (1992):
a subjetividade deste homem é intrinsecamente processual [...] e ela seria a própria processualidade, aquela heterogenese, repetição diferenciadora, através da qual vai se constituindo um si mesmo, sempre outro, uma espécie de estrangeiro.
O homem contemporâneo, vivido no sujeito da aviação, precisa ir de encontro a esse estranho, “encontrá-lo”, uma vez que ele lhe aponta para uma dimensão de uma alteridade que vai tomar corpo em sua existência, que é seu “próprio devir”.
A cultura que possivelmente se produzirá será permeada por essa condição de re-significação e de sentido novo, tanto para o sujeito como para a própria aviação em seu processo constante de subjetivação.
Creio que este texto pode ser finalizado deixando uma reflexão aberta, sem fronteiras e sem planos de rotas, que embora sejam tão necessárias para a segurança de um vôo no real, nas idéias aqui formuladas, abrem-se para infinitas rotas e possibilidades que são próprias do ser humano enquanto sujeito que dá sentindo ao seu mundo.
Pensemos nas palavras trazidas por Enriquez (2001, p.35):
O sujeito é, portanto, um ser capaz, ao mesmo tempo sapiens, demens (objeto da hybris), ludens e viator, homem, portanto, de sabedoria e loucura, do jogo e da vagabundagem, respirando a plenos pulmões um ar salubre, dando um sentido mais puro às palavras da tribo (MALLARMÉ), interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados tangíveis, inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebe-la, por tanto, homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos, de seus medos, de suas metamorfoses a própria condição de sua vida, sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos; homem apto a recolocar em jogo sua vida e correr riscos.
Correr riscos, buscar prazer e poder foi a dimensão primordial na aviação e compõe a construção de seu sujeito, de sua história e de sua cultura.
Estamos e estaremos traçando “paisagens infinitas” de subjetivação na aviação e para tanto, parece-nos ser importante entender a “cartografia”, as “forças e fluxos” em que essas paisagens estão inseridas, para que possamos avaliar as condições de vôo do homem e qual o seu papel e possíveis formas de ação na atividade de voar no agora e no futuro.
REFERÊNCIAS
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EIZIRIK, M. F. Paradigmas da Subjetividade e Poder. In: Revista Educação, Subjetividade e Poder. Porto Alegre: 1995. n.2, p.22-25.
GUATTARI, F. e ROLNIK, S. Micropolítica: Cartografias do Desejo. Petrópolis: Vozes, 2001.
PATT, H. L. Psiquiatria Aeronáutica Sistêmica. Buenos Aires: Cargieman, 1987.
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WINNICOTT, D. Da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves Ed, 1993.
FATORES HUMANOS OU HUMANOS FATORES
Maria da Conceição Pereira
Psicóloga
l
Acompanhando o desenvolvimento da aviação no mundo, o que se tem observado é o avanço, especialmente no contexto da tecnologia aeronáutica voltada para oferecer condições cada vez mais eficientes, junto aos aparatos artificiais que voam. Rapidez e precisão são dimensionadas na busca do aperfeiçoamento dessa tecnologia e do atendimento às demandas específicas de um mundo regido, essencialmente, pela economia de um mercado globalizado e com exigências rápidas .
Em paralelo está o homem que atua com essa tecnologia. Aquele que hoje tem a incumbência de gerenciar esses aparatos artificiais ultramodernos e em sua condição humana de ser finito, falível e sensível, mostra-se como o componente crítico do sistema aeronáutico, por isso, sobre ele recai toda uma preocupação diante de questões que envolvem a segurança de um vôo.
Nesse contexto, é pertinente reportar-se a uma análise crítica proposta por Dejours, psiquiatra e psicanalista francês, sobre o conceito de fatores humanos dimensionados no meio das ciências técnicas e tecnológicas, a qual se faz presente no meio da comunidade aeronáutica mundial.
O conceito de fatores humanos na aviação emana das ciências tecnológicas e carrega, considerando as críticas de Dejours, um reducionismo e um cientificismo, onde se têm esquecido aspectos éticos e políticos que efetivamente estão relacionados à complexidade humana e que concretamente também dimensionam suas ações e desempenho.
Talvez seja o momento de avançar na possibilidade de rever esse conceito aproveitando um pouco mais do que as ciências humanas e as ciências do trabalho têm oferecido para ampliar essa compreensão, voltada às questões humanas na aviação.
Onde se dá o reducionismo dos Fatores Humanos ?
Esse reducionismo se dá na medida em que essa noção fica estreitamente associada à idéia de erro, falha, falta cometida por operadores dos sistemas, onde os aspectos conceituais que tornam essenciais o respeito da própria condição humana termina por ser percebido dissociado de questões de sua subjetividade, singularidade, a promoção de sua saúde e segurança referentes a estes seres humanos em situação de seu trabalho na aviação.
As máquinas voadoras tornaram –se cada vez mais sofisticadas e automatizadas, e, às vezes, a idéia que passa nesses avanços tecnológicos é a tentativa de se minimizar o erro humano, pensando que afastando ou controlando tecnologicamente o homem, diante de ações mais operacionais/técnicas, junto a sua máquina, garante-se a possibilidade de se evitar os seus possíveis erros.
Verifica-se que existe uma preocupação, no contexto aeronáutico, da busca do controle do erro humano diante de suas ações nas operações aéreas. A preocupação dos estudos vêm focada na contribuição dos fatores humanos, nos processos em que se acredita desenvolver o chamado “erro humano”. A solução estabelecida fica, quase sempre, centrada na capacidade de minimizar e ou controlar os efeitos dessas ocorrências baseada na tecnologia, esquecendo-se a dimensão do humano.
Acredita-se que seja preciso ir além de simplesmente dimensionar desvios, falhas , lapsos , faltas e violações, no contexto da confiabilidade humana.
Até o momento, o homem, enquanto operador, é visto como o menos confiável. Avançando nos conceitos relativos ao humano na aviação, é necessário deter-se mais na perspectiva do homem como agente de ação não programável, de flexibilidade com criatividade, potencialmente aquele que pode atenuar falhas iminentes e assumir situações imprevistas possível diante dos sistemas.
Hora, se hoje a idéia é de um “pensar sistêmico” no mundo aeronáutico, por que, na prática do desenvolvimento de ações pró-ativas, avança-se tanto nos contextos tecnológicos e se caminha tão lentamente diante de práticas administrativas dos recursos humanos desse mesmo sistema?
Volta-se, então, a questionar como Dejours, Fatores Humanos ou Humanos Fatores na aviação?
A compreensão dos fenômenos humanos, em sua essência, no contexto aeronáutico significa também encontrar o entendimento das relações subjetivas existentes dos sujeitos componentes da aviação, inseridos numa dimensão cultural que pode ser geradora de atitudes e comportamentos incompatíveis com a Segurança de Vôo. Daí entende-se o erro como sintoma coletivo do sistema.
Entender os erros humanos como um fenômeno humano é mais que minimizar possibilidades iminentes de errar, é ir além dos Fatores Humanos, é buscar os Humanos Fatores na aviação.
A aviação tem mudado de forma tão veloz quanto seus próprios aviões se modificaram, no que se refere à tecnologia, porém, o homem, fisiologicamente, mantém sua estrutura básica de ser humano nas mesmas condições anteriores a estes avanços. A evolução psicossocial do homem não ocorre na mesma rapidez que as suas próprias criações diante da tecnologia.
Edith Seligmann Silva, cientista brasileiro da condição humana com relação ao trabalho, diz, com muita precisão, que as configurações inesperadas do mundo do trabalho dos tempos de hoje desafiam as capacidades humanas de interpretação e tomadas de decisões participativas nos contextos do trabalho sofisticado, e entende-se a dimensão da aviação de hoje num padrão de sofisticação que vem exigindo daqueles que a fazem uma permanente disponibilidade de lidar e superar imprevistos e incertezas no cotidiano de suas atividades.
Partindo desse pressuposto, avançar tecnologicamente é importante e faz parte da evolução da humanidade, porém não se pode perder de vista que cada avanço tecnológico gera no homem novas formas de comportamentos, novas formas de subjetivação e novas respostas nas suas ações.
As ações pró- ativas que são necessárias, diante das questões humanas na aviação, devem- se concentrar, especialmente, no processo de cuidar desses mesmos seres humanos, no sentido de salvaguardar sua condição psicofísica sócio/ econômico e cultural, para que possam assumir suas vulnerabilidades, manter maior atenção em suas complexidades humanas, diante de suas atividades, como gerentes , pilotos , controladores , mecânicos, comissários e tantos outros seres humanos que fazem a aviação. È preciso encontrar também as condições efetivas numa postura ética e uma política solidária nas organizações em que, concretamente, a Indústria Aeronáutica em todos seus aspectos se coloque efetivamente comprometida com a segurança de vôo e fazendo dela uma prática social em prol do desenvolvimento da humanidade, desta forma:
O caminho se dá avançando dos Fatores Humanos para os Humanos Fatores presente nas atividades aeronáutica.
Este trecho de Saint -Exupéry do livro "Terra dos Homens", deixa uma bela reflexão sobre o avião e sobre a aviação como uma atividade humana. "Sem dúvida, o avião é uma máquina. Mas que instrumento de análise ! Esse instrumento nos permitiu descobrir a verdadeira fisionomia da terra. ...Libertados, desde logo, das servidões queridas , libertados da necessidade das fontes , apontamos a proa para o alvo longínquo. Só então, do alto de nossas trajetórias retilíneas, descobrimos o embasamento essencial, o fundo de rocha, de areia, de sal em que, uma vez ou outra, como um pouco de musgo entre ruínas, a vida ousa florescer.Então, somos transformados em físicos, em biologistas, examinando essas civilizações que enfeitam o fundo dos vales e, às vezes, por milagre, estendem-se como parques onde o clima as favorece. Então, podemos julgar o homem por uma escala cósmica, observando-o através de nossas vigias como se fora através de instrumentos de estudo. Então relemos a nossa história."
É preciso pensar como Exupéry, o avião é um instrumento, nada mais que um instrumento, e que só o homem que o “criou” pode transformá-lo, num sábio instrumento!
Qual o lugar do Erro da Aviação ?
Tolerância – Redução – Contenção
Historicamente, o conceito que se estabeleceu é que não existe espaço para o erro, no mundo da aviação. No que diz respeito aos estudos relativos ao caminhar do homem nessa atividade, depara-se com uma tradição fundamentada na idéia de que ele deveria ser um super-homem, imune à possibilidade de cometer erros. No entanto, a ciência, por meio dos vários ramos que estudam o comportamento humano, vem mostrando que não há pessoas imunes ao erro. No momento em que ocorre um acidente aeronáutico, não mais se deve analisar a condição humana e seus erros de forma isolada; há que se considerar como os erros se processam, em que circunstâncias ocorrem e de que forma tais circunstâncias podem ser compreendidas. Essa compreensão é necessária para que se possam implantar mudanças que permitam mitigar a ocorrência de erros semelhantes.
Haverá sempre vulnerabilidades nas operações realizadas por um homem. Por mais bem pensados e elaborados que sejam os projetos, treinamentos e capacitações, não há como contemplar de forma inteiramente adequada os fatores que envolvem a condição humana. O que a indústria aeronáutica vem implementando, e deve procurar consolidar cada vez mais, é a idéia de equilíbrio entre os sistemas ditos confiáveis e a condição em que os operadores promovem as compensações nas falhas dos projetos. Não é retirando o homem da operação que se consegue prevenir os erros. James Reason (1997) observa que o erro que leva ao acidente não advém exclusivamente de uma perspectiva pessoal operacional; é resultado de interações de situações imperfeitas do sistema que já estão presentes na organização e que não estão sendo observadas de uma perspectiva apropriada.
Na tendência de analisar os atos inseguros que se configuram no ativo de quem executa as atividades na ponta da linha nas organizações, não são considerados os erros de decisões gerenciais, de supervisões (quando existem), as condições da administração e a má gestão dos recursos disponíveis (humanos, materiais etc.). As organizações nem sempre estão preocupadas em procurar a adequação de suas decisões relativas aos processos organizacionais, ou não estão preparadas para isso. Há necessidade de efetivar cortes de custos e equipamentos, de adotar políticas promocionais, políticas de procedimentos e metas, mas com o devido cuidado de manter o gerenciamento dos riscos. Deve-se evitar o estabelecimento de condições que possam propiciar cenários para o erro humano, ou para erros gerenciais que só se revelam posteriormente, a partir da vivência de um incidente (quando reportado e analisado) ou de um acidente.
O que é preciso levar em consideração é que, com a evolução da tecnologia e da indústria aeronáutica, nos últimos anos, o erro humano deve ser pensado de uma nova forma. Hoje, o erro é reconhecido como inevitável, no desempenho humano. Nas novas configurações de sistemas sociotecnológicos, é preciso trabalhar à luz de um conceito de tolerância ao erro e de resistência ao erro. Precisamos ir além do erro, adotando as idéias já dimensionadas sobre o que envolve as condições organizacionais, na perspectiva da segurança em prol da gestão do erro.
Se nos situarmos em reportes e especificações de situações que podem revelar possibilidades de erro, perceberemos que, nos palcos de nossas organizações aeronáuticas, não dispomos de uma cultura que alimente o sistema de informação sobre erros e sobre o que estamos fazendo com eles. Temos, ainda, baixíssimos níveis de reportes e de dados de controle baseados em experiências reais, nas organizações. Não nos detemos, efetivamente, na análise de fenômenos expressos nos comportamentos dos operadores na rotina de trabalho, de forma a encontrar caminhos de gerenciamento efetivo dos erros, com o objetivo de contê-los ou reduzi-los, ou, ainda, de promover medidas destinadas a limitar suas conseqüências adversas, que continuarão a ocorrer.
Isso nos faz pensar que “as análises de acidentes não incluem a perspectiva das condições em que os erros foram revistos e recuperados”. Entretanto, teríamos a possibilidade de gerenciamento da dimensão e do aprendizado somente a partir de observações do comportamento expresso e da forma como a possibilidade de errar está sendo, não só estudada, como também vivenciada na realidade das ações do operador, dos seus gerentes e dos responsáveis pelos comandos das organizações.
Segundo Reason (1997) e Dekker (2002), esta é uma visão atualizada do erro humano: errar como sintoma de problemas interiores no sistema, tanto no humano individual (o operador, o gerente) como no humano coletivo (a organização).
Deveríamos procurar, não somente a explicação das falhas ativas humanas, mas também a compreensão de como se expressam e onde aparecem. Especialmente, deveríamos buscar o entendimento de que as decisões humanas, na configuração de suas falhas ativas, mesmo daquelas consideradas “absurdas”[1], no instante em que foram executadas e em sua condição de atividade de ação expressa foram pensadas como corretas, por aqueles que as assumiram naquela situação.
A redução do erro inclui medidas destinadas a limitar sua ocorrência. Como isso não acontecerá de forma plenamente bem-sucedida, há necessidade de contenção do erro e de implementar medidas para limitar as conseqüências adversas dos erros que podem continuar a ocorrer. Bert Ruitenberg (2003) aponta algumas dessas medidas:
- Medidas para minimizar o erro e responsabilidade do indivíduo ou equipe;
- medidas para reduzir o erro de particular vulnerabilidade;
- medidas para descobrir, avaliar e, em seguida, eliminar a produção de erros, fatores estes que acontecem dentro do local de trabalho;
- medidas para diagnosticar fatores organizacionais que permitem a geração de erros produzidos dentro do indivíduo e das equipes;
- medidas para aumentar a tolerância ao erro nos locais de trabalho e sistemas; e
- medidas que tornem mais visíveis as condições latentes para aqueles que operam e gerenciam os sistemas.
Talvez um dos grandes problemas que ainda vivenciamos no mundo aeronáutico, especialmente no Brasil e América Latina, é a falta de uma gestão planejada para o erro. Ainda ficamos centrados nas falhas ativas e não buscamos a compreensão do que apresenta o latente daquele incidente ou acidente dentro das organizações. Focamos no pessoal, e não no situacional. Os que operam no local onde acontece a falha ativa tornam-se “os bodes expiatórios”, aqueles que devem ser perseguidos. Falta, especialmente, a sistematização dos erros, e parece que todos os focos de pensar os erros se configuram como se os fatores fossem aleatórios.
Nos processos investigativos de acidentes, a sensação que se tem é de que estamos analisando fatos e de que não contemplamos as condições de interação de todos os aspectos pertinentes a um processo que revela uma atuação humana. Nesses aspectos, vislumbram-se fatores humanos, interfaces que passam por dimensões da forma como o homem usa suas habilidades, as quais estão sujeitas ao seu contexto histórico, social e cultural.
Erros configuram-se em diferentes tipos, processam-se em diferentes mecanismos psicológicos e em diferentes segmentos ou partes de uma organização, são produtos e resultados de situações favoráveis ao estabelecimento de condições para sua ocorrência.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DEKKER, Sidney. Inglaterra: Ashgate Publishing Ltd., 2002.
Human Factors - Orientações para Gestão de Tráfego Aéreo ICAO Doc 9758. Montreal, Canadá.
RUITENBERG, Bert. O erro e a Aviação
MOREL, Christian. Erros radicais e decisões absurdas: uma reflexão sobre a estrutura das decisões. Trad. Monica Baña Alvarez. Rio de Janeiro: Campus, 2003.
[1] “O inconsciente existe também naqueles não doentes, mas nesses casos ele é muito menos visível e muito menos evidente. Em nossa opinião, a decisão absurda é o equivalente a um eclipse do sol. A situação excepcional do sol é uma oportunidade para observamos sua coroa, impossível de ser vista de qualquer outra forma.” (MOREL, 2003)
Maria da Conceição Pereira
Mestre em Psicologia Clínica, especialista em Fatores Humanos na Aviação.
Todo sofrimento será memória. Eu, [sentado aqui,serei só estes versos que dizem [haver um eusentado aqui.
Antonio Brasileiro De Pequenos Assombros (1998/2000)
Hoje resolvi escrever alguma coisa sobre o meu vivido diante do acidente do vôo 1907 acontecido na serra do Cachimbo, Região do Parque Indígena do Xingu.
Meu principal interesse quando escrevo, é que gostaria de deslocar os que me lêem para além de minhas próprias palavras. Escrever sempre me levou a possibilidade de alcançar um novo estágio de percepções que tenho daquilo que me cerca no mundo, e da própria situação em que me encontro no momento que escrevo.
Creio que devo começar a escrever do pós-acidente, pensando no momento anterior ao acidente. Gostaria de me situar e situá-los na dimensão do meu olhar (sempre míope) de como percebia naquele momento a aviação no Brasil.
A visão da Aviação Brasileira nesse momento...
Não é desconhecido que algumas empresas aeronáuticas no Brasil perderam-se na “teia do redemoinho” da própria crise econômica no setor aeronáutico do mundo. Paralelo a estas questões, o sistema aeronáutico brasileiro estava e esta passando, por mudanças de ordem político-administrativas que incluem uma perspectiva sociocultural e econômica, segundo os especialistas, de busca de abertura de mercado e ampliação no sentido de um pensar voltado para aviação civil, gerida e pensada por Civis. A implementação da Agencia Nacional de Aviação Civil (ANAC - criada em setembro de 2005 e instalada em março de 2006), como agencia civil estaria dimensionando, como outros grandes paises do mundo, uma perspectiva de uma aviação livre e democrática, já que até então, estava à aviação civil calcada em gerenciamentos, muitas vezes entendidos como extremamente padronizados e fechados de cunho militar, uma vez que era administrada por militares.
Sem querer fazer nenhuma leitura crítica de onde está a melhor perspectiva de gerenciamento de nossa aviação, penso que, um momento de transição implica em cuidados efetivos de se encontrar caminhos para aquilo que está funcionando bem não perca o rumo. E, a ANAC deveria procurar efetivar ações para pontos de referencias que precisam ser modificados para tornamo-nos melhor, diante daquilo que não funcionava dentro dos modos ideais.
O vôo 1907
Volto a vôo 1907, vôo da empresa que neste momento mais desenvolve ações de crescimento no Brasil no nosso negócio aeronáutico. Um vôo em uma aeronave que trazia uma das últimas gerações tecnológicas no seu cunho técnico material, gerenciado por uma tripulação treinada, preparada e rica de experiência profissional, um vôo de rotina, um vôo que, provavelmente, transcorria em seu dia a dia de normalidade. Um vôo que carregava alegrias, tristeza, sonhos e esperanças da vida de 154 pessoas.
E, aconteceu a fatalidade!
Não vou descrever o acidente na minha forma de enxergá-lo como profissional especialista em fatores humanos na aviação. Esta não é minha intenção aqui. Todos que me lêem, neste momento, já estão com suas idéias formadas e vivem um pré-texto efetivado pela forma como a mídia vem informando e explicando o acidente do vôo 1907, espero apenas, como já disse, anteriormente, “deslocar” um pouco este “pré-texto” já efetivado dentro de cada um.
Prefiro salientar minha preocupação de psicóloga que desenvolve sua prática na aviação, de que o caminhar das indústrias aeronáuticas e do próprio sistema aeronáutico como um todo, vive uma filosofia que fortalece e super estima a tecnologia diante das condições humanas e suas subjetividades, no meu entender. Neste acidente o sistema levou um xeque (do xadrez - jogo complexo), e, um xeque-mate!
O xeque-mate na Aviação Civil
Trago o jogo de xadrez como metáfora, por ser um jogo que muda suas ações a todos os momentos, e que os jogadores de forma muito complexa, precisam fazer uma leitura geral compondo pró-atividade e reatividade na perspectiva do seu caminhar no jogo, no fenômeno que emerge em cada jogada efetivada, entre as partes envolvidas, que muda a cada momento seu próprio caminhar no caminhar do jogo.
O que nos faz pensar: é preciso reiniciar um novo jogo de conhecimentos na prevenção dos acidentes aeronáuticos. E é preciso buscar outras rotas para nossos estudos técnico-científicos, que permita maior entrelaçamento na compreensão dos fatores humanos entre o tecnológico e o subjetivo humano, considerando, o subjetivo instalado na sociedade pós moderna.
Em nosso caminhar na aviação, com as implementações dos recursos técnicos e das diversas gerações do CRM e de outros dispositivos técnicos, que efetiva o gerenciamento do humano diante de sua atividade, trabalhamos, creio eu, ainda em conceitos teóricos sobre erros, violações e o próprio entendimento do Humano na aviação, com bases que, provavelmente, já se perderam neste caminhar infinito de mudanças do próprio homem diante do mundo que ele faz parte, cria e recria.
Creio que este acidente diante das configurações que se evidenciam no fenômeno vivido, e que vai se revelando nas investigações em todas as ordens, seja a técnica-operativa aeronáutica, seja no contexto da mídia, seja nas prerrogativas das demandas jurídicas que emergem de um mundo eminentemente econômico, é preciso procurar novos “lances” (no fenômeno de jogar com o conhecimento) de um saber mais compreensivo que explicativo. É preciso rever os conceitos sobre fatores humanos na aviação, e é preciso entender que os sistemas que componham a aviação vão além das instituições que a praticam; empresas aéreas fabricas de aviões, organizações reguladoras, organizações outras que se fazem presente em tal atividade. É preciso pensar, também, no contexto político ideológico do mundo que vivemos em suas composições objetivas e subjetivas, e é preciso chegar perto do possível inimaginado e até mesmo do “quântico dos encontros caóticos” que formulam dimensões favoráveis à vida e dimensões favoráveis a morte.
Feitas estas considerações, relato agora o que vivi no atendimento ao pos acidente como psicóloga cuidadora daqueles vitimados, parentes, pessoal operativo da empresa envolvida, e dos próprios cuidadores.
O Pós-acidente do vôo1907.
Vislumbrei que vivemos momentos distintos e fazemos, efetivamente, um caminhar e um movimento para cada momento que emerge do fenômeno pós-acidente.
Comecemos pela tomada de conhecimento do evento:
Tomei conhecimento do acidente dentro de um supermercado, quando fui acionada pelo chefe de operações do serviço de atendimento da aviação civil do aeroporto de Recife.
Assim se dar à dor, em momentos singelos do viver. Dos impactos vividos:
O desaparecimento do vôo 1907 - GOL, a evidencia de choque no ar (acidente de tráfego aéreo). A configuração de um desastre de massa dentro do nosso sistema aeronáutico, em um momento de transição efetiva entre os órgãos competentes responsáveis pela aviação no Brasil. A rota e local previsto onde se efetivou o desaparecimento do vôo 1907 (rota de cruzeiro, sobre a região Amazonas). A possibilidade técnica de não existir sobreviventes, caso o avião tivesse caído rumo a terra, sem rumo e sem prumo. Como? Pergunto eu.
Saindo do contexto impactante da noticia era preciso tomar algumas providencias segundo a nossa lei de assistência à família IAC-200-1001/2005, e já no aeroporto passamos a receber os familiares e amigos ávidos de notícias e cheios de esperanças de que não fosse verdade.
Para ser mais prática em meu relato vou tentar trazer o que aprendi nesta experiência e que quero fazer valer junto a outros profissionais.
Este acidente em relação ao pós-acidente nos ensinou que treinar é preciso, capacitar pessoas no atendimento é fundamental e que, mesmo treinados, enfrentaremos a situação de forma singular e única. Sempre!
Tornou-me mais claro, que a dor congrega... Congregou os familiares e amigos das vítimas, daí a dificuldade inicial dos órgãos competentes de tomarem as medidas devidas e facilitadoras para encontrar a aeronave, chegar ao local, encontrar ou não sobreviventes, demorou apenas, o suficiente em que as famílias se reuniram e fizessem do seu grito de dor a bandeira de sua luta. E isto foi impulsionador para que os dirigentes das instituições envolvidas saíssem de seus pedestais onipotentes a correrem atrás do prejuízo de não estarem preparados de forma mais clara e objetiva no pensar cooperativo num momento como esse. Necessário é sair das vaidades corporativas e caminhar unidos.
Vivência no atendimento no luto
Este acidente trouxe a possibilidade de que a vivencia da dor se deu num primeiro momento na da perplexidade (aconteceu um acidente, alguém que amo pode está lá). A da dúvida com esperança, na confirmação da lista de passageiro (alguém que amo está lá, ainda vive?). A da dor da realidade com restinho de esperanças, na condição da afirmação técnica: não há sobreviventes (alguém que amo pode ter morrido, mas ainda não foi encontrado). A dor da certeza da realidade, e fim da esperança (alguém que amo foi encontrado morto e identificado).
O movimento psicológico de este caminhar é extremamente desgastante para as pessoas envolvidas, para os familiares e para os profissionais que estavam acolhendo o processo do atendimento. O movimento é de alojar a dor num dado momento, e sentir que foi desalojada num outro; e em outro momento diante de novas notícias que surge, para alojá-lo novamente. Isto é cíclico. Até fechar o circulo no concreto do enterro de seus mortos. A partir de então, será outro movimento.
No mundo aeronáutico negar a morte é componente organizador para o vôo, assim, nos perguntávamos todo tempo, como lidar com a morte como resultado de um vôo? A morte em massa, não mais a morte pontual de acidentes pequeno que em nossa prática profissional já tínhamos experimentado e acompanhado.
A perspectiva do atendimento no pós-acidente é trabalhar o luto na emergência, e trabalhar o luto não é abafar a dor, é principalmente deixá-la emergir para poder sair dela, inteiro, e entender que para os que ficam, a vida não pára. Freud já dizia:
“A dor que não é compreendida inevitavelmente reaparece, como um espírito andante que não pode descansar até que o mistério seja esclarecido e o encanto quebrado.” FREUD - OBRAS COMPLETAS, 1909.
Disse a professora Maria Helena Pereira Franco, grande especialista brasileira no assunto, e coordenadora do grupo de trabalho do atendimento pós-acidente do vôo 1907:
“A pessoa enlutada em condições traumáticas está fragilizada e precisa de acolhimento. O que norteia nossa prática é o cuidado para não fazer com que a pessoa pare de sofrer rapidamente, pois isso seria um mecanismo de obstrução de sua reação, com conseqüências graves. Tomamos cuidado para não evitar o assunto”, FRANCO, M. H. P. (agencia FAPESP-2006).
E o cuidado com os profissionais de atendimento?
É preciso compreender que não só os parentes, mas os profissionais de companhias aéreas, grupos de salvamento, profissionais de saúde, funcionários das instituições envolvidas, os controladores de tráfego aéreo e os pilotos que estiveram envolvidos diretamente neste acidente, jornalistas e outros envolvidos, podem precisar de atendimento.
Posso falar por mim, e tudo que venho sentindo nestes últimos dias me faz identificar que sintomas normais, advindo da situação anormal, me chegam, em momentos que sinto meu sono perturbado, falta de apetite, certa labilidade afetiva (choro com facilidade), assim , a equipe de atendimento deve está sempre se trabalhando, buscando apoio um no outro e se permitindo sair por alguns momentos do contexto onde o grupo de familiares, funcionários e outros são atendidos, para oxigenar sua condição psicológica, e retomar aos atendimentos com condição de ser produtivo o suficiente e oferecer seus cuidados.
E o atendimento pós-acidente do vôo 1907 se fe...
No caso do desastre do vôo 1907, a maior parte dos atendimentos foi realizada em quatro hotéis de Brasília, disponibilizados pela empresa aérea, onde alojou parentes das vítimas. Cerca de 300 pessoas esperaram o reconhecimento dos corpos na Capital Federal. Em alguns casos, os parentes não puderam viajar, inclusive por motivo de saúde, entre outros motivos. Por isso a equipe de trabalho se espalhou pelo Brasil nos estados onde estavam presentes pessoas familiares de vítimas, cerca de oito estados brasileiros.
Feito este atendimento e enterrados seus mortos, agora é preciso acompanhar a forma como estas pessoas mais próximas das vitimas vão seguir suas vidas com a possibilidade do compromisso regulamentar junto à empresa aérea, de apoiá-los com atendimento médico e psicológico no mínimo de um ano.
Considerações para meditação
Não entrarei em outros detalhes que observei nesta experiência que envolve a questão da ordem da permanência da mídia e da especulação judicial das “recompensas” dos seguros previstos. Não quero ser especulativa no meu posicionamento pessoal, mas todo me pareceu neste âmbito, muito triste e doloroso. Não sentia a importância da vida ou do valor do outro como ser de existência, aquele que passa e nos deixa algo que nem a morte tira.
O que observei, infelizmente, foi que aquele que se vai, se tornou produto de especulação pecuniária em função dos “produtos de venda” que emergem da situação de um desastre no mundo de hoje, dimensionado e regido pela economia, assim, advogados, profissionais do seguro, psicólogos, médicos, jornalistas, agentes funerários, entre outros, mal os corpos estavam sendo identificados, já estavam buscando encontrar caminhos onde o dinheiro falava e mandava.
Voltando a pensar no acidente e no como ele aconteceu, situação que ainda não existe resposta, digo que espero que a mídia, assim como soube ser sensacionalista, mas também, impulsionou muitas ações que ajudaram no processo da busca e reconhecimentos das vítimas, como também o setor jurídico diante de seus interesses, impulsionem os processos investigativos do acidente para a elucidação que ajude a compreensão de que um acidente não ocorre de uma causa específica. Espero que estes demais seguimentos vistos tão nocivos até então, por ser muito especulativo e detentor de um poder de punição, ajudem para que os órgãos responsáveis pela regulamentação na aviação e a prevenção de acidentes possam ser mais cautelosos em suas decisões, e apreendam de verdade com este acidente. Que a tensão gerada entre saber aeronáutico, saber jurídico e saber jornalístico possam ser produtivos e congregador em busca da prevenção. Este acidente trouxe na dor, o muito que diante da prática temos que procurar aprender a desenvolver seguindo o caminho da vida nos seguimentos aeronáuticos.
“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma. Até quando o corpo pede um pouco mais de almaA vida não para”.
(Lenine e Zeca Baleeiro)
AUTOMAÇÃO / O DESEJO E PRAZER EM VOAR
AUTOMAÇÃO / O DESEJO E PRAZER DE VOAR
Maria da Conceição P. Sougey — Psicóloga .
Cmte. Carlos Batista Gonzalez — Cmte. e Psicólogo
Com o avanço histórico do tecnocentrismo, os instrumentos criados pelos homens tem se expandido e ocupado cada vez mais espaços que eram antes preenchidos por ele, transferindo às maquinas funções que até então eram executadas e vivenciadas pelo próprio inventor.
Nossa época tem sido marcada por uma nova relação entre homens e máquinas, onde um novo tipo de utopia, a "Tecnologia", tem conseguido efeitos tão diversificados que parecem alterar a forma como os primeiros se percebem no mundo, trazendo uma nova realidade, ainda não completamente compreendida por ele.
Focalizando a atividade aeronáutica através do seu processo de avanço tecnológico, observa-se que o homem que executava a ação de levar ao céu as máquinas voadoras, perdem a cada dia a importância de seu papel enquanto agente ativo e principal do ato de voar.
Automatizar tem significado cortar custos, baratear equipamentos e mão de obra, viabilizar aquisições, aumentar frotas e consequentemente os negócios (capital), quer dizer, atender as demandas de um paradigma que se baseia essencialmente na economia, o que inexoravelmente tem exigido novas relações trabalhistas e sociais.
Por outro lado, tudo isso tem implicado em perda gradual do controle do homem, o piloto, sobre o evento maior que o construiu, o vôo.
A intensa automação que se verifica atualmente nas cabinas de comando, tem transferido para as máquinas grande parte das tarefas antes atribuídas ao piloto, que outrora "fazia o avião voar".
Hoje, pousos completamente automáticos e equipamentos que impedem ao piloto realizar qualquer manobra que seja julgada inadequada às fases do vôo, são uma realidade. A sensibilidade artificial eletrônica (artificial feeling) com a qual os modernos pilotos automáticos são dotados, permitem manobras tão precisas, suaves e econômicas quanto só um piloto bem treinado e experiente é capaz.
O contexto tecnológico modernamente oferecido ao piloto, praticamente banaliza sua presença a bordo, relegando-o ao mero posto de gerenciador de sistemas, e a esta banalização segue-se uma subvaloração daquele personagem, o piloto, que passa a buscar uma nova relação com a máquina, exigindo dele a adaptação ou a constituição de uma nova identidade.
Compreender a relação do homem com a atividade aérea, exige uma incursão ao entendimento do seu desejo e prazer de voar.
O homem, ser essencialmente terrestre, desenvolveu-se originalmente limitando a maior parte de seus deslocamentos em contato com a concretude da superfície do planeta. Não estando, portanto, naturalmente biológica ou psicologicamente adaptado para deixar aquele ambiente. Tem conservado, porém aquele homem, em seu inconsciente o produto da imaginação e do desejo de seus ancestrais, de "elevar-se aos céus".
A mitologia, como recurso primordial para a realização de ações humanamente improváveis ou naturalmente impossíveis, lançou mão de figuras como Dédalo e seu filho Ícaro, para materializar a possibilidade de o homem (uma vez que aqueles personagens eram também humanos), elevar-se acima da superfície dura, concreta e real da terra, rumo ao desconhecido, ao distanciamento, num ambiente até então reservado aos verdadeiros deuses. "E eles voaram".
Ocorre que a realização deste desejo de voar exige a utilização de um recurso artificial, o avião, que devidamente mimetizado, quer dizer, integrado ou assimilado ao corpo do aviador, permite à ele concretizar seu intento.
Voar então é produto do desejo inconsciente do homem de realizar o naturalmente irrealizável, transpondo os próprios limites (ultrapassar velocidades, sustentar-se sobre a terra, dominar os ventos, driblar as tempestades) o que faz com que esse homem "alado" sinta-se "potente e poderoso".
Voar, então se justifica naquele sentimento de poder, permitindo que o homem se arrisque na transgressão (das leis naturais), transcendendo sua condição humana, aproximando-o dos deuses primordiais.
Ninguém se torna piloto por acaso. Segundo Rodolfo Bohoslaviski (1971), "de alguma forma o vínculo com qualquer atividade tem algo de reparatório para o indivíduo, onde a atividade escolhida será o depositário externo do objeto interno que clama por ser reparado, dimensiona o comportamento das ocupações, incluindo o processo de escolha, na singularidade do sujeito e enfatizando o trabalho de construção social cristalizado nas ocupações. Assim fica estabelecida uma relação dialética entre o homem e sua atividade".
A motivação específica da atividade aérea vem do "prazer de voar", "do gosto de voar", da possibilidade de evadir-se. O homem transpõe seus limites. "Solo el placer es capaz de transcender sobre el miedo inherente al peligro" (Diero Miisenard, citado por Hernero Aldoma, 1978, pg.28)
Na atividade aérea ao mesmo tempo em que comporta uma significação narcísica, ela também suporta investimentos simbólicos.
"Uma atividade pelo gesto que ela implica, pelos instrumentos que movimenta, pelos materiais tratados, pela atmosfera, veicula um certo número de símbolos. A natureza e o encadeamento desses símbolos dependem ao mesmo tempo da vida interior do sujeito isto é, do que ele põe, do que ele introduz de sentido simbólico no que o rodeia e no que ele faz" (Dejour, 1987, pg.50).
Envolvido na atividade de voar além de realizar o objeto interno, o homem realiza o sonho do impossível, do inimaginável ao homem da Grécia antiga. É como que se mimetizando aquela grande massa de metal e outros tantos materiais sintéticos e componentes, dando vida às máquinas de voar, ele,homem se torna um pouco dela, emprestando-lhe a "potência" e a capacidade de lançar-se aos ventos, rumo ao desconhecido, ao não térreo, à morada dos deuses, como fizeram Dédalo e Ícaro.
Os pilotos de hoje, juntos de suas máquinas voadoras parecem ter perdido contato com a essência do vôo e de seus elementos simbólicos. O que lhes tem sido modernamente oferecido como possibilidade de realizar seu desejo de voar, transforma-se, e transforma-o.
As mudanças, não só tecnológicas mas todas as demais envolvidas na dimensão humana como resultado de um processo histórico, tem ocorrido numa velocidade maior que a capacidade de mudança interna do homem. Vive-se um momento epistemológico, uma crise de sentido do "fazer voar", pela não plena realização do desejo de voar.
No campo surgido da ruptura provocada então pela crise de sentido, pode se localizar componentes (elos) significativos da corrente que simbolicamente representa o encadeamento de fatores que culminam em um incidente/acidente aeronáutico, que parece materializar um desprazer prévio, que impede o piloto de mobilizar o melhor de si na tentativa de vencer as inexoráveis forças da natureza.
Neste novo tempo, fatores limitadores tem impedido a aparente e adequada simbiose homem-máquina. Fatores estes como: as rígidas regras, o próprio processo de automação, as relações organizacionais e os novos paradigmas do trabalho, entre outros, tem afastado cada vez mais os pilotos de suas "asas", tornando-o apenas um componente a mais daquela que antes era parte de seu corpo, a que lhe permitia se sentir um ser diferenciado.
Agora ele é parte de um complexo sistema operacional, um gerenciador desse sistema e nada mais. Esse novo processo de relação com seu instrumento/objeto de realização do seu desejo e prazer (o avião agora automatizado), reduz o seu “poder”, isso parece interferir diretamente em sua auto-estima, rebaixando-a de tal forma que se sentindo abandonado à própria sorte, mal consegue mobilizar recursos internos ou externos em prol da manutenção de suas conquistas prévias.
Hoje parece sintomático na aviação, viver-se uma crise de sentido, que coloca o piloto diante das possibilidades e necessidades de desempenhar tarefas que nem sempre lhe proporcionam o desejado ou esperado prazer, que partindo da referência das demandas internas, sugere um novo processo de adaptação, uma ressignificação da atividade de voar, porque não uma nova identidade na tentativa de encontrar um novo sentido para o cenário que lhe é oferecido para voar, uma vez que o automatismo se revela irreversível.
Bibliografia consultada:
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega Vol I. Petrópolis. Ed. Vozes, 1994.
BLEGER, José. Psico-higiene e psicologia institucional. Porto Alegre Ed. Artes Médicas, 1988.
BOHOLAVSKY, Rodolfo. Orientação Vocacional à estratégia clínica. São Paulo; Ed. Martins Fontes. 1977.
DEJOURS, C. A loucura do trabalho; estudo de psicologia do trabalho . São Paulo Ed. Cortez-Oboré, 1987.
FREUD S. Três ensayos para uma teoria sexual (obras completas V.II). Madri; Ed. Biblioteca Neuva. 1981.
FILHO, Marcondes Ciro. Sociedade Tecnológica. São Paulo; Ed. Sipione. 1994.
KLEIN, Melaine. A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego – contribuições à psicanálise. São Paulo; Ed. Mestre Jou. 1981.
PATT, Hugo Leimann. Síndrome de desadaptacion secundaria al violo sociedade interamericana de psicologia aeronáutica. Buenos Aires. 1989.
UM ENFOQUE DE PSICOLOGIA COGNITIVA NA INSTRUÇÃO OPERACIONAL EM UM CENTRO DE TRÁFEGO AÉREO
Este texto tem a intenção de mostrar um trabalho desenvolvido junto à instrução operacional em um Centro de Controle de Tráfego Aéreo, onde a Psicologia Cognitiva passa a ser elemento de apoio para a capacitação do controlador de tráfego aéreo e oferece subsídios científicos da Psicologia para acompanhá-lo em sua instrução e preparação para sua homologação.
Os resultados deste trabalho embora ainda seja preliminar e apenas qualitativo em sua subjetividade, indica a importância do acompanhamento psicológico na instrução de controladores de tráfego aéreo não só no nível de uma preparação emocional para o bom desenvolvimento operacional, mas também de uma preparação do entendimento de seus processos cognitivos como elemento chave de otimização em sua homologação.
Keywords: Instruction; Cognition; Operation; Air traffic control; Cognitive Processes
This paper intends to present a work developed with air traffic controllers’ operational instruction, where Cognitive Psychology is used as a support to air traffic controllers’ capacitation and it also offers scientific subsidy to accompany their instruction and to certificate them to the job.
The preliminaries results show the importance of the psychological accompany on the air traffic controllers’ instruction both in the emotional preparation to a good operational development and in the understanding of the cognitive processes as the key of the human certification.
Sigue...
LA PERCEPCIÓN
LA PERCEPCIÓN Y SUS GENERALIDADES
Apesar de este ser un asunto de estudios en la aviación hace algún tiempo que existe una confusión sobre su significado. De forma simplista ,percibir és conocer lo que está a tu alrededor. Obviamente no és así tan simple y en la aviación esta cuestón tiene una gran importancia. Conocer és sinónimo de estructurar , dar un significado. .
La percepción se dá en neste acto de estructura cognitiva , en esta posibilidad del hombre ser sujeto cognoscente. Conocer exige percibir!
Así , percepción és el modo según el cual el individuo construye en si el conocimiento que posee de las cosas , personas y situaciones, auque , as vezes sea llevado al error. És através de los organos de los sentidos que recibimos la información del mundo que nos rodea. Los sentidos pueden ser considerados como nuestra ventanas para el mundo. Ellos nos traen las informaciones, entonces estas són interpretadas por nuestra percepción, que les atribuy un significado.
Se supone que as vezes la percepción nos dar un reflejo perfectamente exato de la realidad , aunque así no sea. Primeiro porque nuestros sentidos no responden a muchos aspectos del ambiente que nos rodea... Despues porque podemos percibir estímulos no presentes. Finalmente, las expectativas, la motivación, las experiencias anteriores, las emociones y otros estados mentales também influyen lo que és percibido.
La percepción se entiende como una conjugación de diversas actividades cognitivas.
La Atención nos permite encontrar fácilmente el sentido de la información que captamos .
Siendo que este poder de selección que disponemos ,cuando aplicado a las estructuras de estímulos, permite que reaccionemos perceptivamente a unos y dejemos otros para planos secundários. Ahí és que la resposta perceptiva no se procesa uniformemente en relación a los estímulos que se nos presenta;
La memória nos permite almarzenar momentaneamente la información captada por los sentidos y compará-las com la información almazenada a largo plazo;
La consciência nos comunica com el mundo que nos rodea. Por ejemplo: se te sientes particulamente feliz el paisaje distante puede parecerte magnífico,pero, cuando estas deprimido el mismo paisaje puede parecerte horrible;
El procesamiento de la información, influye en las conclusiones a las que llegamos sobre lo que percibimos .Comparamos situaciones anteriores com la presente y hacemos interpretaciones y avaluaciones ;
El estado mental, o sea , las emociones , los intereses y las expectativas que tenés en relación al mundo que te rodea , bien como las influencias culturales a las que estás expuesto , tambien influencían la percepción .
GERENCIAMIENTO Y CONTROL DEL ESTRÉS
I – Introducción
Hablar de gerenciamiento y control de estrés implica también en reflexionar un poco sobre como viene viviendo el hombre contemporáneo y como este mismo hombre responde a las exigencias de este mundo.
Vivimos un período signado de capitalismo financiero, también llamado neoliberalismo.
El hombre dentro de una sociedad neoliberal, incorpora el valor mercantil como patrón dominante de su interpretación del mundo.
Para entender mejor esta interpretación del mundo actual, vamos a tomar prestado un concepto elaborado por Deleuze y Guattari, denominado de “modo de subjetivación capitalista”, donde estos autores llaman la atención para el hecho que el hombre contemporáneo vive un atravesamiento de fuerzas económicas, políticas, culturales y psicológicas , que efectivamente lo llevan para una modelización, para una homogenización y un principio de indentidad donde indetificarse más com aquello que él no es, de que con aquello que potencialmente él podría ser. Podemos decir que en el modo de producción de la subjetividad capitalista , valemos por lo que tenemos y no por lo que somos.
Y en este texto entendemos a los hombres no como un sujeto que solo tiene y sí por lo que es en su proceso de vivir.
La sociedad hoy enfoca: El hombre tiene que conseguir suceso, ser bello y competente, donde se excluye todo aquello que no se aplica a esos modelos.
Dentro de estos modelos de valores, se ha formado un grupo de excluidos que efectivamente se quedan en la búsqueda constante de encontrar su inclusión.
Y dentro de la lucha de atributos del status y poder para vivir estos modelos, nosotros nos hemos olvidados de nuestra existencia.
Todo avance de la tecnología también contribuye para una realidad objetiva y subjetiva que nos parece inestable , y estamos aumentando nuestros niveles de estrés, estamos enfermándonos por que estamos repletos de sentimientos de impotencia que se han traducido por la total apatía delante de la vida; por un intenso deseo de no-ser por la falta de condiciones y perspectivas de ser.
La enfermedad es significativa para quien enferma, y expresa su contexto y su historia dentro de la sociedad de la cual forma parte.
Eliminar completamente el estrés de nuestras vidas, es imposible y fisiológicamente podría significar la muerte.
En la sociedad actual, el estrés se ha expresado en la forma de los aspectos negativos, y ha llevado al hombre a enfermarse.
Lo importante es que las personas pueden desarrollar sus habilidades personales y psicosociales para administrar mejor los agentes estresantes en su día a día, de tal forma que el estrés no sea un impedimento al desempeño personal, ni a su salud y ni a su bienestar.